Entre, fique à vontade. Sente, relaxe, aproveite. Vai ser um pouco alto, mas eu sou assim mesmo**. São apenas lagartixas divinas *** - as minhas lagartixas. Às vezes, partos cerebrais***. E nada mais.



(*) crédito a Ton K.; (**) Marvin Gaye; (***) Nietzsche















terça-feira, 30 de março de 2010

Do som e o silêncio

Amo a música. Mas tenho desespero mesmo pelos livros. A música tem algo de impalpável, de fugidio e essa relação me é incômoda. A palavra escrita, mesmo plana e seca, me dá texturas, deixa escapar odores, até. Sublima meu eu, agarra minha alma. Não é coerente em mim, mas está em mim: certa ignorância sobre a combinação sonora – uma vez que pode ser também invadida pela palavra.  Acho que é porque não posso eu compor seu ritmo, escolher o tom, as cores da propagação. Ela já tem um protagonista. A palavra inaudível me parece precisar de arranjos individuais, por mais que o maestro esteja onipresente. Parece precisar apropriar-se de uma existência real. A música existe por si, invade espaços alheios quando desperta. Gosto do eco das orações na minha mente, mais do que das notas amarradas. Daquele espaço elas não podem fugir, por mais aberto que seja, a não ser que eu as desperte também. Peço perdão por cometer essa verdade*.
(*) Manoel de Barros
Alemoa. Moa.

Índigo (2)

Ouço a conversa dos dois e aqui relato:
"- Cuca, olha como estou gelada! Meu coração vai parar com tanto frio! O que faço pra me aquecer?
- Não sei. Tem muito vento lá fora, Déia?
- Muito. Cuca, me ajuda? Toca no meu coração! Como eu vou me esquentar?
- Pede pra Deus te ajudar, Déia.
- Mas como eu falo com Deus? E o que eu digo pra Ele?
- Põe a mão no teu peito e pede pra Ele deixar teu coração mais quente, Déia.
- Achas que Ele vai me ouvir, Cuca?
- Ouve sim, Déia. Eu sempre falo com o Papai do Céu. E ele tem orelhas!"

Kat.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Repuxo

O corpo rende-se ao tempo que o recompensa com dobras, frestas, ferrugem, sequelas. E reclama disso em público. A alma, não, ao contrário. Em resposta às décadas, caprichosa e discretamente, volta ao seu estado pueril, de recém-nascida. Então, ao invés do primeiro choro de vida pela palmada leve e salvadora, ouço um vocábulo monossílabo, impelido pelo reunir dos ossos para uma simples caminhada de quadra e meia até a praia. A velhice nunca me foi tão visceralmente assustadora. Nunca tive tanto medo dela. Sempre a desejei muito para mim e querendo que chegasse em disparada à minha alma, bem depois ao resto. Na verdade, sempre a quisera para minha mente, não para minha pele – não há como esconder nela as rusgas, tal qual faz a tinta com os cabelos brancos ou a memória seletiva com os fatos. Sempre a desejei muito - a velhice -, mas nunca a quis para meus pais. No entanto, a limitação física ululante daquele homem apareceu sob holofotes para eu desistir, enfim, de negá-la.

Jamais havia nadado no mar sem a parceria dele. A água para mim, 33 anos, estava fria, para meu pai, 67 anos, queimava como um cobertor de gelo. Entre água, fogo, pedras e dois mergulhos impostos pelas ondas, ele emerge desesperado, como se lhe tivesse faltado o ar por minutos, desistindo do convite, de mim. Há poucos cinco anos, voávamos com as ondas brandas e gigantes de um Pinhal em bandeira amarela, furávamos com virilidade aquelas mais enfurecidas, não sem bradar nossa aventura com gritos de Tarzan. Juntos e por horas. Ontem, ele me deixava só como quase sempre, desta vez, pelo protesto incontestável do próprio corpo. Fugiu desequilibrado, duas vezes desequilibrado, como um menininho estreando o mar: saudável, porém ingênuo e, então, cambaleante, porque ainda não tem humildade para reconhecer que, diante daquele mundo e daquele momento, é frágil. Tão-somente com os anos vai administrar a imensidão de água salgada, surpreendente e turbulenta, aprender com ela, enfrentá-la e, logo, voltar a se esquivar do mar justamente pelo tempo que passou.

Quanto a mim, sequer tentei recorrer daquela ação. Foi uma sentença inapelável. E temo que, definitiva: vou mesmo ficar só para enfrentar todo um oceano e, breve, fugir dele para que não congele o que restar de ossos e dignidade.

Moa.
Fev./2009.