Entre, fique à vontade. Sente, relaxe, aproveite. Vai ser um pouco alto, mas eu sou assim mesmo**. São apenas lagartixas divinas *** - as minhas lagartixas. Às vezes, partos cerebrais***. E nada mais.



(*) crédito a Ton K.; (**) Marvin Gaye; (***) Nietzsche















sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Haiti e Satanás

Com suas releituras. Kat volta a ficar impressionada porque Andrés* falava da Colômbia como quem conhece quase todo o planeta Terra:

"O que é que acontece neste país que parece irremediavelmente condenado à ruína e à desgraça? Por que não melhoramos, por que não avançamos? Que complô sinistro nos mantém mergulhados na desordem generalizada, na corrupção e na entropia social? Por que os políticos e os grandes empresários continuam ordenhando a nação sem lhe dar uma pausa, sem lhe outorgar uma possibilidade para se reorganizar e procurar a redenção?" **

(*) Releia no blogue a postagem Haitis (2009/Janeiro)
(**) Satanás, ficção do colombiano Mario Mendonza 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Moedas

Faço poucas coisas por dinheiro, o que, sei bem, me exclui de numerosas disputas - as disputas selvagens, claro, se é que existe outro tipo de disputa no mondo cane* do hall da Sala Escura. No entanto, há uma moeda que me seduz impiedosamente no oceano da bonança material: a liberdade, unicamente a liberdade.

Nunca como no "Novo Mundo" os ricos foram tão incrivelmente ricos e nunca esses mesmos ricos foram tão inusitadamente parcos e jamais esses mesmos incríveis e inusitados parcos ricos foram tão facilmente ricos. Eles são livres nesse sentido do poder ir. Não é a essa liberdade mecânica que me refiro. Se todo mundo tem seu preço, o meu é esta senhora: a douta liberdade Stricto sensu, estrita e restrita (há, sim, outras liberdades ou uma suprema). O termo é paradoxal – para mim, ao menos. Contudo, no seu exercício, nada é mais generoso, nem mesmo o prazer, não a glória, não o poder: "O dinheiro é belo, porque é a libertação".

A falta do dinheiro (me) impede o poder-ir, o "ir" sem privações - sequer de grandes privilégios, como o experimento de si mesmo. Fico imaginando-me em tubos de ensaio, sem gênero, cor, número ou grau, espalhada em pequenas placas, observada por mim mesma através de microscópios potentes, em situações adversas, infectadas, virulentas, e, então, desvelada até os átomos mais profundos da minh’alma - por mim mesma!

O que eu faria se não tivesse um censor materialista? Dizem que o dinheiro incontável dá esse tipo de permissividade às pessoas. Quem eu seria? Ainda a que acho que sou ou aquela que tento ser? A que eu quero ser ou a que nunca imaginei ser? Afinal, "quem sou eu para mim? Só uma sensação minha"? Escrava, "sou todas essas coisas, embora o não queira, no fundo confuso da minha sensibilidade fatal".

Moa.
(e) Fernando Pessoa, por citações.
 Moa, moa!

(*) Do italiano para o português: "mundo cão", expressão apropriada do documentário intitulado Mondo Cane, de  Gualtiero Jacopetti. Quando lançado no Festival de Cannes, em maio de 1962, o longa foi chamado de "shockumentary" -  documentário chocante. Apresenta uma coleção de imagens com as mais incríveis e improváveis situações protagonizadas pela raça humana. Cenas de depravação, perversidade, rituais bizarros, comportamento cruel e violência animal. O termo tornou-se sinônimo para perplexidade e sensacionalismo.



sábado, 13 de fevereiro de 2010

Quero-quero ou Sobre Medo e Liberdade

De repente, não mais que de repente, pela rua, quando observavam os seres desimportantes*:
- Déia, o que foi isso? Esse barulho?
- São pássaros cantando, Cuca.
- Mas onde eles estão que eu não vendo?
- Não sei, não estou vendo também.
- Olha lá, Déia! Achei!
- É mesmo, amado!
- Pega ele pra mim, Déia?
- Não, Cuca! A gente não pode pegar um passarinho, porque ele foi feito pra viver no céu, livre!
- Eu queria ser um passarinho...
- E por que querias ser um passarinho?
- Porque eles são livres.
- Mas tu não és livre Cuca?!
- Não.
- Por que achas que os passarinhos são livres e tu não?
- Porque eles têm asas e podem voar no céu. Eu quero voar, Déia!
- Só que tu não foi feito com asas, Cuca! Fostes?
- Não, mas eu queria!
- Mas tu tens a terra pra andar e o mar pra nadar! Tuas pernas e braços foram feitos pra isso. Não te bastam a terra e o mar?
- Me bastam. Mas eu queria voar...
- Bom, que tal um pássaro de mentira, daqueles de ferro que levam um monte de gente, então?
- Que nem o teu, Déia?
- É, como aqueles que tu vias no aeroporto, quando me buscavas com o teu vô. Queres?
- Queroooo!
- Mas não vais ficar com medo, Cuca?
- Vou sim, mas eu quero ser livre como os passarinhos.

(O Lucas "Cuca" é um menino cor de chocolate suiço ao leite, tem 4 anos de idade incompletos e fala exatamente como transcrito no diálogo, mas arrastando o "s", embora seja um pelotense nato.)

(*) Manoel de Barros

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

"Tupiniquinês" - sobre a língua e o tamanho

Jazido na Terra brasilis, o povo "tupiniquim" fala em crianças e velhos como se fossem condições externas a ele, ao ser humano; como se nunca tivesse sido criança e como se nunca viesse-a-ser* velho. No meio do caminho esses índios de cara pálida já estão mortos, condenados à clausura da juventude. Pior, a uma juventude forjada na selvageria da era da extrema conexão**, ou da era dos extremos***, dos extremos de tudo, de si, do outro, das outras coisas (pleonasmo?). Digo àqueles que pensam em ser ou a vir a ser plastificados e jazem, com toda sua altura, como números de série, série de próteses de silicone. 

Os tupiniquins falam em ser jovens como se fosse uma condição externa deles, mas não percebem que apenas estão jovens (medíocres e ingratos?). E que essa, sim, pode ser uma condição eterna, ad infinitum.

Kat. 
(*) conjugação pretensiosamente nietzscheniana;  (**) do físico Albert-László Barabási;  (***) do historiador contemporâneo Éric Hobsbawm

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Apanhadora de desperdícios

Desfazendo o laço de uma pequena caixa de papelão aparentemente simples e leve, Katrina emerge do mais profundo baú de suas vidas com uma percepção barrosa e instintiva: - 'Mim', apanhadora de desperdícios. E  transcreve, para quem quiser nadar nesse gigantesco "mar de lama":
 
"Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho ABUNDÂNCIA de SER FELIZ por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
Eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios."
 
Manoel de Barros,  
por Kat.