Entre, fique à vontade. Sente, relaxe, aproveite. Vai ser um pouco alto, mas eu sou assim mesmo**. São apenas lagartixas divinas *** - as minhas lagartixas. Às vezes, partos cerebrais***. E nada mais.



(*) crédito a Ton K.; (**) Marvin Gaye; (***) Nietzsche















segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Voltando. Voltando a ser Pessoa

"A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar."

(F. Pessoa)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Bisturi

" (...) é cosubstancial ao fato de escrever, sentir dor e alívio ao mesmo tempo."*


(*)Millás

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sobre vacas, pastores e ruminantes

Entre o queijo e os vermes* ainda apenas depositado na sala, Katrina costura suas teses como se quisesse ser Menocchio e  anota:

"Esteve morta por mais de 30 anos, quando só então começou a morrer de verdade. Começou a viver enquanto viva para morrer na hora certa: A morte perde seu terror quando se morre depois de consumida a própria vida. Caso não se viva no tempo certo, então nunca se conseguirá morrer no momento certo.  Toda vida não vivida ficará latejando dentro de você! A questão é que escolher viver implica outra escolha: é uma opção entre o conforto e a verdadeira investigação. E (...) se você matar Deus, terá também que deixar o abrigo do templo. Se a gente sofre? É claro que você sofre, ora! Coração bola! É o preço da visão. Dá medo? É claro que você sente medo, viver significa correr perigo. A solução?

Torne-se rijo! Você não é uma vaca e eu não sou apóstolo da ruminação**. 

(*) O livro O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg. O livro!
(**) Nietzsche, claro. E colagens com Nietzsche..."

sábado, 29 de maio de 2010

Enganosamente rústica ou Eu, coelha de mim


Au Lapin Agile: Um dia escapo da panela e chego ao Cabaret des Assassins!


Moa.

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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Coisas ou "coisos"* que salvam minha vida - alguns e algumas.

Pão caseiro quentinho com margarina e açúcar;
a revoada improvável de 'cocotas' no céu cinza-insistente que abobadeia a umidade totalitativa do ar satolepense e suas mediocridades caminhantes...;
escutar nietzsche, eslabões e kunderas na vitrola, a todo volume (interno);
tropeção por encostar o nariz no céu tentando adivinhar o que as nuvens dizem com esboços de suas profecias e sonhos e mitos e verdades e lendas e... coisas;
"fugir" para dentro de uma piscina cheia de chocolate ao leite derretido, como se Pat Adams providenciasse o meu banho gigante de macarrão ao molho de tomate;
"Deu pra ti" no agreste paulistano do apartamento a dois dias do Porto Alegre;
imitar a seis pernas "um vampiro, um lobisomem, um saci pererê" no mesmo apartamento agreste a dois dias do porto alegre; repetir isso a quatro pernas (duas ainda curtas), três anos depois, e ver que aquilo realmente salvou a minha vida;
desenho animado a café com leite, muito nescau e açúcar (no café com leite!);
banho de regador com água aquecida na chaleira no fim de tarde da primavera-quase-verão;
abraços honestos de completos desconhecidos;
índios, especialmente os transparentes;
nuança, Pessoa e Quintana;
aparição de beija-flor, oboé e cítaras; 
música celta, de tão raro que é...;
chocolate napolitano;
procurar o cruzeiro do sul no céu e ver que ele ainda é igual ao que está desenhado no meu braço esquerdo, apesar de um profeta dizer que "não é o mesmo céu que você conheceu, não é mais";
ouro branco - o bombom, logicamente;
pés de jabuticaba. Subir neles e comer deles;
susto de lagartixa durante a madrugada de leituras no sofá da sala; perereca na porta de vidro de casa, naquela respiração volátil de "bochechas" desesperadas; 
gargalhadas, o Cuca e a cuca e o Cuca comendo cuca (de chocolate);
o menino dos cabelos de arcanjo correndo atrás da bola. Às vezes, de mim.

Moa. Moa, moa! 
(*) Em tempos eleitorais-eleitoreiros dá muita vontade de "falar" assim. Fico imaginando um presidente  fazendo inaugurações eleitoreiras  ululantemente eleitorais, mas se dirigindo honestamente ao povo,  para a abertura de seu discurso: "- Coisos e coisas!" ou "- Meus coisos e  minhas coisas!"... Ou outra coisa. Ou outro "coiso"...


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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Medo


Uma falta de gente coexistível...



domingo, 16 de maio de 2010

Do peso e a leveza

Fez-se pedra, cuspe da Terra resfriado. Rola agora como se estivesse pluma: a sustentável leveza do ser. A possível leveza do ser: estar, despido, sem desfazer-se.


sexta-feira, 7 de maio de 2010

Trem das Sete tonkaniano

Fui tentada por satanás (!?) algumas vezes - a quem ele não tenta? Mas sempre sou mais atropelada e surpreendida por tentações quando ele me percebe perdida para o Bem, ordenada pela minha Cura. A maior delas, tentação e perda, foi tonkaniana. Virtudes, fraquezas, talentos; mãos, "aperto da mão", ouvidos e alma que eu sempre desejara meus, comigo. Mas não poderiam ser meu ("sic"), embora eu tenha pertencido a elas de alguma forma - ou tão-só de forma não palpável. A perda foi por um peso  - ou pela insustentável leveza? Foi, escolho, por uma resistência abismal e dilacerante da minha pedra angular, do meu fundamento. Ele já era, há muito, o fundamento de outras Vidas... Queria eu ter pecado, mas definitivamente não poderia, eu, ter pecado! Coração bobo, coração bom, coração bola, bola, bola de balão...

Ói! Ói o trem!, diria Raul, meu colega de profecias... O mal de braços e abraços com o bem, num romance astral...

Quem vai chorar, quem vai sorrir?/
Quem vai ficar, quem vai partir?

A gente se ilude, dizendo já não há mais coração... Mas O coração dos aflitos pipoca dentro do peito...

Amém.

Moa. Moa, Moa!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Nada - outra vez

Katrina lembra-se de uma conversa com aquela sua voz inaudível e familiar...

- Às vezes dá muita vontade de ser nada, estudar nada, me especializar no nada, trabalhar em nada, viver nada e como nada. Pararia de sofrer. Mas o nada não me convence, não me preenche, nem quando eu sou realmente nada, nem quando dou tanta chance de ele me ter para sempre, no nada. E isso me faz voltar a sofrer. C’est la vie. É o que faz a gente viver. E, às vezes, viver com grandeza – ao menos de espírito, o que é muito para os mais evoluídos, ou ironicamente nada para os materialistas.

Moa.

terça-feira, 30 de março de 2010

Do som e o silêncio

Amo a música. Mas tenho desespero mesmo pelos livros. A música tem algo de impalpável, de fugidio e essa relação me é incômoda. A palavra escrita, mesmo plana e seca, me dá texturas, deixa escapar odores, até. Sublima meu eu, agarra minha alma. Não é coerente em mim, mas está em mim: certa ignorância sobre a combinação sonora – uma vez que pode ser também invadida pela palavra.  Acho que é porque não posso eu compor seu ritmo, escolher o tom, as cores da propagação. Ela já tem um protagonista. A palavra inaudível me parece precisar de arranjos individuais, por mais que o maestro esteja onipresente. Parece precisar apropriar-se de uma existência real. A música existe por si, invade espaços alheios quando desperta. Gosto do eco das orações na minha mente, mais do que das notas amarradas. Daquele espaço elas não podem fugir, por mais aberto que seja, a não ser que eu as desperte também. Peço perdão por cometer essa verdade*.
(*) Manoel de Barros
Alemoa. Moa.

Índigo (2)

Ouço a conversa dos dois e aqui relato:
"- Cuca, olha como estou gelada! Meu coração vai parar com tanto frio! O que faço pra me aquecer?
- Não sei. Tem muito vento lá fora, Déia?
- Muito. Cuca, me ajuda? Toca no meu coração! Como eu vou me esquentar?
- Pede pra Deus te ajudar, Déia.
- Mas como eu falo com Deus? E o que eu digo pra Ele?
- Põe a mão no teu peito e pede pra Ele deixar teu coração mais quente, Déia.
- Achas que Ele vai me ouvir, Cuca?
- Ouve sim, Déia. Eu sempre falo com o Papai do Céu. E ele tem orelhas!"

Kat.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Repuxo

O corpo rende-se ao tempo que o recompensa com dobras, frestas, ferrugem, sequelas. E reclama disso em público. A alma, não, ao contrário. Em resposta às décadas, caprichosa e discretamente, volta ao seu estado pueril, de recém-nascida. Então, ao invés do primeiro choro de vida pela palmada leve e salvadora, ouço um vocábulo monossílabo, impelido pelo reunir dos ossos para uma simples caminhada de quadra e meia até a praia. A velhice nunca me foi tão visceralmente assustadora. Nunca tive tanto medo dela. Sempre a desejei muito para mim e querendo que chegasse em disparada à minha alma, bem depois ao resto. Na verdade, sempre a quisera para minha mente, não para minha pele – não há como esconder nela as rusgas, tal qual faz a tinta com os cabelos brancos ou a memória seletiva com os fatos. Sempre a desejei muito - a velhice -, mas nunca a quis para meus pais. No entanto, a limitação física ululante daquele homem apareceu sob holofotes para eu desistir, enfim, de negá-la.

Jamais havia nadado no mar sem a parceria dele. A água para mim, 33 anos, estava fria, para meu pai, 67 anos, queimava como um cobertor de gelo. Entre água, fogo, pedras e dois mergulhos impostos pelas ondas, ele emerge desesperado, como se lhe tivesse faltado o ar por minutos, desistindo do convite, de mim. Há poucos cinco anos, voávamos com as ondas brandas e gigantes de um Pinhal em bandeira amarela, furávamos com virilidade aquelas mais enfurecidas, não sem bradar nossa aventura com gritos de Tarzan. Juntos e por horas. Ontem, ele me deixava só como quase sempre, desta vez, pelo protesto incontestável do próprio corpo. Fugiu desequilibrado, duas vezes desequilibrado, como um menininho estreando o mar: saudável, porém ingênuo e, então, cambaleante, porque ainda não tem humildade para reconhecer que, diante daquele mundo e daquele momento, é frágil. Tão-somente com os anos vai administrar a imensidão de água salgada, surpreendente e turbulenta, aprender com ela, enfrentá-la e, logo, voltar a se esquivar do mar justamente pelo tempo que passou.

Quanto a mim, sequer tentei recorrer daquela ação. Foi uma sentença inapelável. E temo que, definitiva: vou mesmo ficar só para enfrentar todo um oceano e, breve, fugir dele para que não congele o que restar de ossos e dignidade.

Moa.
Fev./2009.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Haiti e Satanás

Com suas releituras. Kat volta a ficar impressionada porque Andrés* falava da Colômbia como quem conhece quase todo o planeta Terra:

"O que é que acontece neste país que parece irremediavelmente condenado à ruína e à desgraça? Por que não melhoramos, por que não avançamos? Que complô sinistro nos mantém mergulhados na desordem generalizada, na corrupção e na entropia social? Por que os políticos e os grandes empresários continuam ordenhando a nação sem lhe dar uma pausa, sem lhe outorgar uma possibilidade para se reorganizar e procurar a redenção?" **

(*) Releia no blogue a postagem Haitis (2009/Janeiro)
(**) Satanás, ficção do colombiano Mario Mendonza 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Moedas

Faço poucas coisas por dinheiro, o que, sei bem, me exclui de numerosas disputas - as disputas selvagens, claro, se é que existe outro tipo de disputa no mondo cane* do hall da Sala Escura. No entanto, há uma moeda que me seduz impiedosamente no oceano da bonança material: a liberdade, unicamente a liberdade.

Nunca como no "Novo Mundo" os ricos foram tão incrivelmente ricos e nunca esses mesmos ricos foram tão inusitadamente parcos e jamais esses mesmos incríveis e inusitados parcos ricos foram tão facilmente ricos. Eles são livres nesse sentido do poder ir. Não é a essa liberdade mecânica que me refiro. Se todo mundo tem seu preço, o meu é esta senhora: a douta liberdade Stricto sensu, estrita e restrita (há, sim, outras liberdades ou uma suprema). O termo é paradoxal – para mim, ao menos. Contudo, no seu exercício, nada é mais generoso, nem mesmo o prazer, não a glória, não o poder: "O dinheiro é belo, porque é a libertação".

A falta do dinheiro (me) impede o poder-ir, o "ir" sem privações - sequer de grandes privilégios, como o experimento de si mesmo. Fico imaginando-me em tubos de ensaio, sem gênero, cor, número ou grau, espalhada em pequenas placas, observada por mim mesma através de microscópios potentes, em situações adversas, infectadas, virulentas, e, então, desvelada até os átomos mais profundos da minh’alma - por mim mesma!

O que eu faria se não tivesse um censor materialista? Dizem que o dinheiro incontável dá esse tipo de permissividade às pessoas. Quem eu seria? Ainda a que acho que sou ou aquela que tento ser? A que eu quero ser ou a que nunca imaginei ser? Afinal, "quem sou eu para mim? Só uma sensação minha"? Escrava, "sou todas essas coisas, embora o não queira, no fundo confuso da minha sensibilidade fatal".

Moa.
(e) Fernando Pessoa, por citações.
 Moa, moa!

(*) Do italiano para o português: "mundo cão", expressão apropriada do documentário intitulado Mondo Cane, de  Gualtiero Jacopetti. Quando lançado no Festival de Cannes, em maio de 1962, o longa foi chamado de "shockumentary" -  documentário chocante. Apresenta uma coleção de imagens com as mais incríveis e improváveis situações protagonizadas pela raça humana. Cenas de depravação, perversidade, rituais bizarros, comportamento cruel e violência animal. O termo tornou-se sinônimo para perplexidade e sensacionalismo.



sábado, 13 de fevereiro de 2010

Quero-quero ou Sobre Medo e Liberdade

De repente, não mais que de repente, pela rua, quando observavam os seres desimportantes*:
- Déia, o que foi isso? Esse barulho?
- São pássaros cantando, Cuca.
- Mas onde eles estão que eu não vendo?
- Não sei, não estou vendo também.
- Olha lá, Déia! Achei!
- É mesmo, amado!
- Pega ele pra mim, Déia?
- Não, Cuca! A gente não pode pegar um passarinho, porque ele foi feito pra viver no céu, livre!
- Eu queria ser um passarinho...
- E por que querias ser um passarinho?
- Porque eles são livres.
- Mas tu não és livre Cuca?!
- Não.
- Por que achas que os passarinhos são livres e tu não?
- Porque eles têm asas e podem voar no céu. Eu quero voar, Déia!
- Só que tu não foi feito com asas, Cuca! Fostes?
- Não, mas eu queria!
- Mas tu tens a terra pra andar e o mar pra nadar! Tuas pernas e braços foram feitos pra isso. Não te bastam a terra e o mar?
- Me bastam. Mas eu queria voar...
- Bom, que tal um pássaro de mentira, daqueles de ferro que levam um monte de gente, então?
- Que nem o teu, Déia?
- É, como aqueles que tu vias no aeroporto, quando me buscavas com o teu vô. Queres?
- Queroooo!
- Mas não vais ficar com medo, Cuca?
- Vou sim, mas eu quero ser livre como os passarinhos.

(O Lucas "Cuca" é um menino cor de chocolate suiço ao leite, tem 4 anos de idade incompletos e fala exatamente como transcrito no diálogo, mas arrastando o "s", embora seja um pelotense nato.)

(*) Manoel de Barros

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

"Tupiniquinês" - sobre a língua e o tamanho

Jazido na Terra brasilis, o povo "tupiniquim" fala em crianças e velhos como se fossem condições externas a ele, ao ser humano; como se nunca tivesse sido criança e como se nunca viesse-a-ser* velho. No meio do caminho esses índios de cara pálida já estão mortos, condenados à clausura da juventude. Pior, a uma juventude forjada na selvageria da era da extrema conexão**, ou da era dos extremos***, dos extremos de tudo, de si, do outro, das outras coisas (pleonasmo?). Digo àqueles que pensam em ser ou a vir a ser plastificados e jazem, com toda sua altura, como números de série, série de próteses de silicone. 

Os tupiniquins falam em ser jovens como se fosse uma condição externa deles, mas não percebem que apenas estão jovens (medíocres e ingratos?). E que essa, sim, pode ser uma condição eterna, ad infinitum.

Kat. 
(*) conjugação pretensiosamente nietzscheniana;  (**) do físico Albert-László Barabási;  (***) do historiador contemporâneo Éric Hobsbawm

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Apanhadora de desperdícios

Desfazendo o laço de uma pequena caixa de papelão aparentemente simples e leve, Katrina emerge do mais profundo baú de suas vidas com uma percepção barrosa e instintiva: - 'Mim', apanhadora de desperdícios. E  transcreve, para quem quiser nadar nesse gigantesco "mar de lama":
 
"Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho ABUNDÂNCIA de SER FELIZ por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
Eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios."
 
Manoel de Barros,  
por Kat.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Oremos!

Se fosse padre de mim mesma, sentenciaria rezar mil novecentas e setenta e seis vezes a oração que Sartre nos ensinou: "Não importa o que fizeram de nós, mas sim o que fazemos do que fizeram de nós". 
Em nome do pai, da mãe, da filha e do espírito Sartre. Amém!

Moa. 
Moa, moa! 

P.S.: Moa ainda vai ler de verdade toda a obra de Sartre. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Pedra Lascada


         Na pequena sala do apartamento da mãe, o monitor LG, 17 polegadas, tela semi-plana, realmente parece quase cobrir a mesa retangular de madeira, exagerando-se um pouco. É imponente. Katrina trabalha em um notebook, de no máximo cinco anos de uso, que está com o LCD estragado, morto, pifado*. Por isso a necessidade de ligá-lo a um ecrã de visualização**. Mas ela, moderna em muitas posturas, nunca esperava encontrar-se entre os dinossauros contemporâneos. Deu-se conta disso com a visita rápida de um menino que tem no máximo 10 anos de idade, como ela avaliou. Não apenas com a visita, claro, porque, aparentemente, era um piá*** normal, simples. Simples e espontâneo: lascou logo a sentença tirânica para Katrina, sem ao menos um "bom dia":

- Nossa, meu! Um computador ligado numa televisão! Bah, que massa!  

Katrina riu. Nada mais pôde fazer. Era mesmo um "ser" arcaico diante dos poucos e extraordinários anos de "Novo Mundo" - o monitor de 17 polegadas, não ela!



(*) Minha avó materna, fluente em alemão e pomerano (?!), usava muito essa expressão para coisas que paravam de funcionar de repente. (**) Definição de monitor conforme um dicionário on-line nada confiável. Pelo menos pra mim. (***) Como sabiamente os gaúchos chamam as crianças ou quem tem alma de criança.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Teoria da (minha) Criação

Não sei vocês, mas a minha matriz de gênero e condição não foi originalmente uma reprodução da costela de Adão (nem do que eclodiu deles). Tenho uma teoria própria sobre esta minha existência na Terra. Sim!, ela inclui Deus, logicamente. Um Deus generoso, mas mal-humorado como quase todos seus filhos perdidos da Parte de Baixo. Aliás, “parte de baixo” é uma boa metáfora para este Planeta. Nem tudo precisa ser sofisticado, menos ainda quando o próprio objeto da figura não é.  Em verdade, em verdade, vos digo: Sempre existimos como energia incubada. O Ser está separado do Vir-a-ser por um véu invisível, porque com passagens secretas manifestas apenas para as forças mais esclarecidas, e abruptamente reveladas para os “castigados”.


Ísis sempre reclamava de mim, dizendo que eu era energia demais. Energia gargalhante. O Sol era meu aliado, mas o Silêncio, meu algoz. Tentava sempre me convencer a ficar ensimesmada, nivelada, submissa. Eu, pelo contrário, ria tanto, dava tantas gargalhadas estonteantes e desajeitadas que nem o Criador aguentou mais. No dia da Tempestade (minha tutora secretamente preferida), Deus sugou-me entre suas mãos e soprou a “cortina”. Foi a vez de Ele dar algumas boas risadas comigo. Sabendo que Energias não sentem dores, me sacudiu – generosamente, até que eu perdesse o senso de direção, mas não o caráter energético. Espiou para baixo, rapidamente resignado, mas logo fechou os olhos e, de repente, se divertindo, me soltou:


– Vamos ver, Katrina, se você aprende com os seres terrestres um tom mais facundo, menos destoante de se comportar para retornar ao paraíso. Tem que arranjar mais coisas a fazer além de provocar risos, choques e reconstruções.



Cheguei como um furacão à Terra. Desde então vivo exilada, por agora numa intitulada “doce” e pequena extensão de quilômetros terráqueos. Tenho sido reconhecida por alguns poucos, mas continuo diferente de muita gente desse lugar: um pinguim numa família de elefantes.


Bom, em um ponto Ele acertou: ao cerrar os olhos, sabia que as chances de eu aterrissar em um hábitat alienígena eram fabulosas. Acertou um pouco mais: cheguei a calar, a evitar o riso, a aparentar o mesmo tom e palidez dos chamados humanos. Aprendi com o choro (energias não sabem o que é essa faculdade humana – a de chorar, não a de aprender). Entretanto, acho que Deus está desatualizado sobre os filhos da terra: tenho ficado muito perplexa com os que se chamam pessoas aqui.


Por trás do Véu de Ísis, sabemos que carregamos o caráter de nossas existências, aonde quer que cheguemos - ou que sejamos jogados! Por isso, acho que Deus vai ter que ter uma conversa mais profunda com o Silêncio e mudar alguns conceitos e regras daquele paraíso. Se Ele me mantiver por muito tempo na Terra, pode perder a escola de mesmices e submissão, até porque eu voltei a gargalhar, procurando apenas o volume mais “facundo”. Acho que na verdade era isso que Deus queria que aprendêssemos, mas tenho sido mais aberta aos “ensinamentos” dos submundos. Quando eu descobrir diretamente com meu "Criador" no que deu essa experiência toda, volto e puxo uma perna pra contar pra vocês. [Gar-ga-lha-das!]


Katrina
2010

*Baseada em Marcel Souto Maior

P.S.: Acho bastante apropriado manifestar-se por aqui (ainda em vida!) quem não quiser minha visita. [Mais gar-ga-lha-das!!!!]

sábado, 16 de janeiro de 2010

Nada

Katrina volta a conversar com aquela voz inaudível e familiar, e reflete:
- Às vezes dá muita vontade de ser nada, estudar nada, me especializar no nada, trabalhar em nada, viver nada e como nada. Pararia de sofrer. Mas o nada não me convence, não me preenche, nem quando eu sou realmente nada, nem quando dou tanta chance dele me ter para sempre, no nada. E isso me faz voltar a sofrer. C’est la vie. É o que faz a gente viver. E, às vezes, viver com grandeza – ao menos de espírito, o que é muito para os mais evoluídos, ou ironicamente nada para os materialistas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Garoto índigo

De repente, não mais que de repente, pela rua, quando observavam os "seres desimportantes":
- Déia, dente é que nem pente, né?
- É, Cuca! Tens razão! E poço rima com osso.
- Rima? O que é “rima”, Déia?
- Rima é como o “que nem” que usaste antes, em “dente é que nem pente”.
- Hmmm.
- Por exemplo: Pardal rima com pedal; amor rima com flor; carro rima com barro e....
[Lucas esboça um sorriso malandro e larga a sentença:]
- E nariz rima com tatu!
[gargalhadas]
- E não é que tens razão de novo?!
(O Lucas " Cuca" é um garotinho real, de 3 anos e 10 meses)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Mim, pinguim. Você, Elephant*?

Eu? Eu, um pinguim numa manada de elefantes
Definitivamente um pinguim numa manada de elefantes. Ou um pinguim na sala de jantar... Um pinguim irônico na sala de jantar. E as outras pessoas nessa sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer. Mas essas pessoas na sala de jantar... são um elefante na sala de estar**.  Éléphant avec élégance***, devem estar trombeteando.


(*) Para lembrar Elephant,  longa de  Gus Van Sant, 2003. 
(**) No documentário homônimo (1989), Alan Clarke usa o título por considerar a violência entre os yovens, tema do filme, um problema "tão facilmente ignorável quanto um elefante na sala de estar".
(***) Francês. Algo como: "Elefante, mas um elefante com elegância!". Remetamo-nos à música Décadence avec élégance (Decadência com elegância), do Lobão.
Agradecimentos a Alan Clarke (1935-1990), Marisa Monte e Lobão pela participação não autorizada, porém devidamente reverenciada (plá!).
PROTESTO: O pinguim de verdade, pra mim, é "pingüim" - com trema!!! Maldita falta de cultura arraigada! Malditos brasileiros, máquinas Xerox de xerox!!!

Haitis

Enquanto isso, em Bogotá, Colômbia*:
"Andrés se senta na Praça Bolívar e contempla os transeuntes que atravessam o local em todas as direções. São cinco da tarde e as pombas já se refugiaram na Catedral e nos edifícios vizinhos. Olha para o norte e se lembra das antigas instalações do Palácio da Justiça antes da fatídica tomada pelo movimento guerrilheiro M19. Uma imponente construção que foi incendiada e arruinada pela demência incontrolada dos militares. (...) Nesse mesmo ano ocorreu a erupção do vulcão de Armeiro, continua lembrando Andrés, a morte de milhares de famílias que foram sepultadas pelas avalanches de lama. A história de Omaira, a menina que agonizou vários dias presa na avalanche, deu a volta ao mundo em jornais, revistas e programas de rádio e televisão. Uma menina que, enquanto morria sem que os órgãos de socorro pudessem fazer nada por ela, contava diante dos microfones e das câmaras seus sonhos, desejos, aspirações, o amor incalculável que sentia pela vida. Andrés chuta as pedras do chão. O que é que acontece neste país que parece irremediavelmente condenado à ruína e à desgraça? Por que não melhoramos, por que não avançamos? Que complô sinistro nos mantém mergulhados na desordem generalizada, na corrupção e na entropia social? Por que os políticos e os grandes empresários continuam ordenhando a nação sem lhe dar uma pausa, sem lhe outorgar uma possibilidade para se reorganizar e procurar a redenção?" ** 
Então? O Haiti é lá e aqui e acolá, há muito e parece que para todo sempre...
* Cenário de Satanás (2009), ficção ("de" fatos reais) de M. Mendonza
**Trechos do livro  

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ouvido interno

Katrina pergunta-se, em voz alta, por que é, às vezes, tão volúvel ou impulsiva com os outros. Uma voz inaudível e curiosamente familiar lhe dá a resposta:
- Porque minha mente me trai. Dá lugar a outros, outros vis. Deixa-os entrar. Soprar. Manipular. Às vezes, minha inteligência some, como se tudo fosse uma grande confusão, um buraco negro, que engole tudo e não revela nada. Mas eu, consciente, sempre. Quando busco algo que me era tão íntimo, ele escapa feito centelhas, centelhas negras. Noutras, falo coisas que não sei, que não parecem minhas, que não sei como sei. E eu consciente, sempre. E por vezes, muitas, quando capturo tudo me foge, como se não fosse eu a que tivesse lido, visto, ouvido - mesmo sendo eu a que tenha devorado - e com a ânsia de quem quer saber tudo, mas que sabe que tudo não pode ser visto, nem tudo lido, nem tudo pensado*. Tomada pela consciência. Sempre.
(*) Fernando Pessoa, Livro do Desassossego