Entre, fique à vontade. Sente, relaxe, aproveite. Vai ser um pouco alto, mas eu sou assim mesmo**. São apenas lagartixas divinas *** - as minhas lagartixas. Às vezes, partos cerebrais***. E nada mais.



(*) crédito a Ton K.; (**) Marvin Gaye; (***) Nietzsche















sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Sobre pernas e aipins: do sol, brotam as verdades

Época difícil essa, de calorões, tempestades - e de saias, bermudas e virações.

Um dos meus tios, piadista nato e "alemão das grotas", dizia que sofre muito quando o sol forte começa a brotar nas cidades: são tempos das alemoas saírem de saia curta e colocarem os aipins de fora (as pernas), com todas as suas nervuras, pra "cozinhar" ao sol. Provoca um certo ofuscamento, uma vontade de não querer enxergar as coisas como elas realmente são. 

Eu? Dava muitas risadas. Gosto de verdades.

Andréia Alemoa. Moa, moa - se puder!
Inelutável.

Da minha lista de "palavras para degustar"...

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Porto Alegre provinciana

Nem os colonos são mais como antigamente. 

Na feira de orgânicos da JB, pedi para me venderem uma cana-de-açúcar inteira. O suco é bom, mas não tem gosto de pretérito mais que perfeito. Fui criada mastigando cana. A lembrança da minha avó materna, descascando aquelas taquaras doces e me entregando, com um olhar da cor do céu, uma caneca de alumínio cheia de pedaços dessa iguaria (pra mim, hoje) é das lembranças mais significativas que eu tenho.

Mas a agricultora da banca do suco de cana riu de mim. Achou engraçado eu preferir passar trabalho a beber o líquido espremido por uma pequena geringonça. E os outros porto-alegrenses também me olharam com estranheza. Se bem que há certa lógica: uma loira esguia, de cabelos californianos e vestido assimétrico, carregando, entre várias sacolas, um meio metro de cana-de-açúcar é uma visão... provinciana, ao menos.

Mal sabem aquelas pessoas estranhas que essa alemoa aqui precisa é de retocar as raízes - capilares, geográficas e anacrônicas.

Miolos em série? Oremos!

Fui fazer as unhas em um salão novo, o que me estimula a observação detalhada. Vi uma mulher de meia-idade, colocando um aplique no cabelo. Baixava a cabeça, dava nós entre os fios naturais e os da peruca, estalando algo parecido com um tique-taque daqueles de enfeitar criança. 

A cena era realmente intrigante: o nariz estava coberto por esparadrapos, de orelha a orelha, quase. Fez-me pensar mais sobre a recauchutagem hominiana...

Eu sempre fui contra a plastificação gratuita dos corpos. Mas venho mudando de opinião. Tenho achado muito bom as mulheres se encherem de silicone, botox, apliques, fios de ouro e o que mais aparecer para esticar ou inflar definitivamente o ego. Por quê?

Com o pagamento facilitado, os preços das cirurgias plásticas popularizados e a persistente mediocridade da Educação dos brasileiros, a tendência é não sobrar lugar para recapagens de toda sorte, a não ser... o cérebro!

Sim!, me conforta imaginar que essa obsessão pela perfeição da aparência, e seus respingos nas pessoas almadas, acabe por deixar um vazio tão grande do espírito que as bonecas, digo, as pessoas passem a se desesperar por preencher a mente.

Oremos para que não fabriquem miolos em série. Basta-nos a imputação de Bárbies e Bobs por todos os lados.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pitangas Cadentes


O pátio do apartamento de Katrina precisava de uma faxina. Sim, o pequeno apartamento tem pátio, duas pitangueiras, rede e churrasqueira, um oásis metropolitano. Daí que ela percebeu que, antes de as pitangas brotarem, caem minúsculas estrelas marrons. Povoam o chão. Foi pensar que o mundo, vez em quando, poderia existir ao contrário:

“Caminharíamos com as copas das árvores sobre nossas cabeças e sob ameaças de frutos maduros. Nadaríamos nas nuvens, cruzaríamos costumeiramente com anjos. Quando estivéssemos cabisbaixos, o céu translúcido seria a resposta mais próxima. Se uma tempestade se firmasse, perpassaria nossos corpos. Faríamos parte dela. Aconteceríamos como raios.

Nesse mundo-inverso, sobre nossos ombros estariam nossas construções, imensidões de lixo, os pobres e os ricos. A qualquer lado que olhássemos, o infinito seria nossos próprios erros e acertos – arquitetônicos ou maquiavélicos. Não escaparíamos desse horizonte. A força da gravidade manter-se-ia nesse “transloucamento”. Estaríamos sobre a Criação Divina e abaixo da intervenção humana.

O que faríamos se não pudéssemos alcançar nossas próprias mazelas, mas de lá elas nunca saíssem? Se o inatingível virasse nossas próprias edificações, nossos arranha-céus, nossos casebres, com o que sonharíamos? Mares e oceanos revoltados sobre nossos corpos. Montanhas, florestas arrasadas. Daí que continuaríamos sendo soterrados, inundados.

As pitangas só brotam vermelhas se caírem estrelas marrons. E se o tempo passar um pouco, desistida a colheita, acabam-se manchas negras no chão. Sob nossos pés ou sobre nossas sentenças.”


Alemoa.
Moa, moa.

Passo do Sobrado ou Sobrado Encantado


Jabuticaba tem gosto de infância, da minha infância!

Levávamos seis horas pra chegar à casa dos meus avós e tudo de que eu precisava era que meu pai me escolhesse para abrir a porteira e subir no pé de Jabuticabeira. Parecia o próprio pé-de-feijão das fábulas, sempre me orgulhei disso. A casa era toda de pedra, a uns dois metros do chão. Ficava difícil deixar os colchões de mola e pular o degrau até a bica d'água do poço artesiano, de ferro, pesada, comprida feito gangorra - outra coisa fantástica para mim.

A infância é mesmo mágica... Voltei lá ontem (devo ter ido outras vezes, mas não recordo): a casa é de alvenaria, o desnível não tem nem meio metro, a bica de ferro foi roubada e a jabuticabeira, que ficava bem no meio do terreno, está no mesmo lugar, ao lado da casa. Tem o tronco tão grosso e tão alto quanto qualquer outra árvore da espécie. Mas o sabor da jabuticaba, ah!, esse continua exatamente como era pra mim há 25 ou 30 anos.

Hoje, entendo melhor ainda Pessoa (e as pessoas): "Sou do tamanho do que vejo, não do tamanho da minha altura".  Ou mais ou menos isso.

Passo do Sobrado, RS, fevereiro de 2013.