O corpo rende-se ao tempo que o recompensa com dobras, frestas, ferrugem, sequelas. E reclama disso em público. A alma, não, ao contrário. Em resposta às décadas, caprichosa e discretamente, volta ao seu estado pueril, de recém-nascida. Então, ao invés do primeiro choro de vida pela palmada leve e salvadora, ouço um vocábulo monossílabo, impelido pelo reunir dos ossos para uma simples caminhada de quadra e meia até a praia. A velhice nunca me foi tão visceralmente assustadora. Nunca tive tanto medo dela. Sempre a desejei muito para mim e querendo que chegasse em disparada à minha alma, bem depois ao resto. Na verdade, sempre a quisera para minha mente, não para minha pele – não há como esconder nela as rusgas, tal qual faz a tinta com os cabelos brancos ou a memória seletiva com os fatos. Sempre a desejei muito - a velhice -, mas nunca a quis para meus pais. No entanto, a limitação física ululante daquele homem apareceu sob holofotes para eu desistir, enfim, de negá-la.
Jamais havia nadado no mar sem a parceria dele. A água para mim, 33 anos, estava fria, para meu pai, 67 anos, queimava como um cobertor de gelo. Entre água, fogo, pedras e dois mergulhos impostos pelas ondas, ele emerge desesperado, como se lhe tivesse faltado o ar por minutos, desistindo do convite, de mim. Há poucos cinco anos, voávamos com as ondas brandas e gigantes de um Pinhal em bandeira amarela, furávamos com virilidade aquelas mais enfurecidas, não sem bradar nossa aventura com gritos de Tarzan. Juntos e por horas. Ontem, ele me deixava só como quase sempre, desta vez, pelo protesto incontestável do próprio corpo. Fugiu desequilibrado, duas vezes desequilibrado, como um menininho estreando o mar: saudável, porém ingênuo e, então, cambaleante, porque ainda não tem humildade para reconhecer que, diante daquele mundo e daquele momento, é frágil. Tão-somente com os anos vai administrar a imensidão de água salgada, surpreendente e turbulenta, aprender com ela, enfrentá-la e, logo, voltar a se esquivar do mar justamente pelo tempo que passou.
Quanto a mim, sequer tentei recorrer daquela ação. Foi uma sentença inapelável. E temo que, definitiva: vou mesmo ficar só para enfrentar todo um oceano e, breve, fugir dele para que não congele o que restar de ossos e dignidade.
Jamais havia nadado no mar sem a parceria dele. A água para mim, 33 anos, estava fria, para meu pai, 67 anos, queimava como um cobertor de gelo. Entre água, fogo, pedras e dois mergulhos impostos pelas ondas, ele emerge desesperado, como se lhe tivesse faltado o ar por minutos, desistindo do convite, de mim. Há poucos cinco anos, voávamos com as ondas brandas e gigantes de um Pinhal em bandeira amarela, furávamos com virilidade aquelas mais enfurecidas, não sem bradar nossa aventura com gritos de Tarzan. Juntos e por horas. Ontem, ele me deixava só como quase sempre, desta vez, pelo protesto incontestável do próprio corpo. Fugiu desequilibrado, duas vezes desequilibrado, como um menininho estreando o mar: saudável, porém ingênuo e, então, cambaleante, porque ainda não tem humildade para reconhecer que, diante daquele mundo e daquele momento, é frágil. Tão-somente com os anos vai administrar a imensidão de água salgada, surpreendente e turbulenta, aprender com ela, enfrentá-la e, logo, voltar a se esquivar do mar justamente pelo tempo que passou.
Quanto a mim, sequer tentei recorrer daquela ação. Foi uma sentença inapelável. E temo que, definitiva: vou mesmo ficar só para enfrentar todo um oceano e, breve, fugir dele para que não congele o que restar de ossos e dignidade.
Moa.
Fev./2009.

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