Amo a música. Mas tenho desespero mesmo pelos livros. A música tem algo de impalpável, de fugidio e essa relação me é incômoda. A palavra escrita, mesmo plana e seca, me dá texturas, deixa escapar odores, até. Sublima meu eu, agarra minha alma. Não é coerente em mim, mas está em mim: certa ignorância sobre a combinação sonora – uma vez que pode ser também invadida pela palavra. Acho que é porque não posso eu compor seu ritmo, escolher o tom, as cores da propagação. Ela já tem um protagonista. A palavra inaudível me parece precisar de arranjos individuais, por mais que o maestro esteja onipresente. Parece precisar apropriar-se de uma existência real. A música existe por si, invade espaços alheios quando desperta. Gosto do eco das orações na minha mente, mais do que das notas amarradas. Daquele espaço elas não podem fugir, por mais aberto que seja, a não ser que eu as desperte também. Peço perdão por cometer essa verdade*.
(*) Manoel de Barros
Alemoa. Moa.

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