Não sei vocês, mas a minha matriz de gênero e condição não foi originalmente uma reprodução da costela de Adão (nem do que eclodiu deles). Tenho uma teoria própria sobre esta minha existência na Terra. Sim!, ela inclui Deus, logicamente. Um Deus generoso, mas mal-humorado como quase todos seus filhos perdidos da Parte de Baixo. Aliás, “parte de baixo” é uma boa metáfora para este Planeta. Nem tudo precisa ser sofisticado, menos ainda quando o próprio objeto da figura não é. Em verdade, em verdade, vos digo: Sempre existimos como energia incubada. O Ser está separado do Vir-a-ser por um véu invisível, porque com passagens secretas manifestas apenas para as forças mais esclarecidas, e abruptamente reveladas para os “castigados”.
Ísis sempre reclamava de mim, dizendo que eu era energia demais. Energia gargalhante. O Sol era meu aliado, mas o Silêncio, meu algoz. Tentava sempre me convencer a ficar ensimesmada, nivelada, submissa. Eu, pelo contrário, ria tanto, dava tantas gargalhadas estonteantes e desajeitadas que nem o Criador aguentou mais. No dia da Tempestade (minha tutora secretamente preferida), Deus sugou-me entre suas mãos e soprou a “cortina”. Foi a vez de Ele dar algumas boas risadas comigo. Sabendo que Energias não sentem dores, me sacudiu – generosamente, até que eu perdesse o senso de direção, mas não o caráter energético. Espiou para baixo, rapidamente resignado, mas logo fechou os olhos e, de repente, se divertindo, me soltou:
– Vamos ver, Katrina, se você aprende com os seres terrestres um tom mais facundo, menos destoante de se comportar para retornar ao paraíso. Tem que arranjar mais coisas a fazer além de provocar risos, choques e reconstruções.
Cheguei como um furacão à Terra. Desde então vivo exilada, por agora numa intitulada “doce” e pequena extensão de quilômetros terráqueos. Tenho sido reconhecida por alguns poucos, mas continuo diferente de muita gente desse lugar: um pinguim numa família de elefantes.
Bom, em um ponto Ele acertou: ao cerrar os olhos, sabia que as chances de eu aterrissar em um hábitat alienígena eram fabulosas. Acertou um pouco mais: cheguei a calar, a evitar o riso, a aparentar o mesmo tom e palidez dos chamados humanos. Aprendi com o choro (energias não sabem o que é essa faculdade humana – a de chorar, não a de aprender). Entretanto, acho que Deus está desatualizado sobre os filhos da terra: tenho ficado muito perplexa com os que se chamam pessoas aqui.
Por trás do Véu de Ísis, sabemos que carregamos o caráter de nossas existências, aonde quer que cheguemos - ou que sejamos jogados! Por isso, acho que Deus vai ter que ter uma conversa mais profunda com o Silêncio e mudar alguns conceitos e regras daquele paraíso. Se Ele me mantiver por muito tempo na Terra, pode perder a escola de mesmices e submissão, até porque eu voltei a gargalhar, procurando apenas o volume mais “facundo”. Acho que na verdade era isso que Deus queria que aprendêssemos, mas tenho sido mais aberta aos “ensinamentos” dos submundos. Quando eu descobrir diretamente com meu "Criador" no que deu essa experiência toda, volto e puxo uma perna pra contar pra vocês. [Gar-ga-lha-das!]
Katrina
2010
*Baseada em Marcel Souto Maior
P.S.: Acho bastante apropriado manifestar-se por aqui (ainda em vida!) quem não quiser minha visita. [Mais gar-ga-lha-das!!!!]