Entre, fique à vontade. Sente, relaxe, aproveite. Vai ser um pouco alto, mas eu sou assim mesmo**. São apenas lagartixas divinas *** - as minhas lagartixas. Às vezes, partos cerebrais***. E nada mais.



(*) crédito a Ton K.; (**) Marvin Gaye; (***) Nietzsche















domingo, 31 de janeiro de 2010

Oremos!

Se fosse padre de mim mesma, sentenciaria rezar mil novecentas e setenta e seis vezes a oração que Sartre nos ensinou: "Não importa o que fizeram de nós, mas sim o que fazemos do que fizeram de nós". 
Em nome do pai, da mãe, da filha e do espírito Sartre. Amém!

Moa. 
Moa, moa! 

P.S.: Moa ainda vai ler de verdade toda a obra de Sartre. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Pedra Lascada


         Na pequena sala do apartamento da mãe, o monitor LG, 17 polegadas, tela semi-plana, realmente parece quase cobrir a mesa retangular de madeira, exagerando-se um pouco. É imponente. Katrina trabalha em um notebook, de no máximo cinco anos de uso, que está com o LCD estragado, morto, pifado*. Por isso a necessidade de ligá-lo a um ecrã de visualização**. Mas ela, moderna em muitas posturas, nunca esperava encontrar-se entre os dinossauros contemporâneos. Deu-se conta disso com a visita rápida de um menino que tem no máximo 10 anos de idade, como ela avaliou. Não apenas com a visita, claro, porque, aparentemente, era um piá*** normal, simples. Simples e espontâneo: lascou logo a sentença tirânica para Katrina, sem ao menos um "bom dia":

- Nossa, meu! Um computador ligado numa televisão! Bah, que massa!  

Katrina riu. Nada mais pôde fazer. Era mesmo um "ser" arcaico diante dos poucos e extraordinários anos de "Novo Mundo" - o monitor de 17 polegadas, não ela!



(*) Minha avó materna, fluente em alemão e pomerano (?!), usava muito essa expressão para coisas que paravam de funcionar de repente. (**) Definição de monitor conforme um dicionário on-line nada confiável. Pelo menos pra mim. (***) Como sabiamente os gaúchos chamam as crianças ou quem tem alma de criança.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Teoria da (minha) Criação

Não sei vocês, mas a minha matriz de gênero e condição não foi originalmente uma reprodução da costela de Adão (nem do que eclodiu deles). Tenho uma teoria própria sobre esta minha existência na Terra. Sim!, ela inclui Deus, logicamente. Um Deus generoso, mas mal-humorado como quase todos seus filhos perdidos da Parte de Baixo. Aliás, “parte de baixo” é uma boa metáfora para este Planeta. Nem tudo precisa ser sofisticado, menos ainda quando o próprio objeto da figura não é.  Em verdade, em verdade, vos digo: Sempre existimos como energia incubada. O Ser está separado do Vir-a-ser por um véu invisível, porque com passagens secretas manifestas apenas para as forças mais esclarecidas, e abruptamente reveladas para os “castigados”.


Ísis sempre reclamava de mim, dizendo que eu era energia demais. Energia gargalhante. O Sol era meu aliado, mas o Silêncio, meu algoz. Tentava sempre me convencer a ficar ensimesmada, nivelada, submissa. Eu, pelo contrário, ria tanto, dava tantas gargalhadas estonteantes e desajeitadas que nem o Criador aguentou mais. No dia da Tempestade (minha tutora secretamente preferida), Deus sugou-me entre suas mãos e soprou a “cortina”. Foi a vez de Ele dar algumas boas risadas comigo. Sabendo que Energias não sentem dores, me sacudiu – generosamente, até que eu perdesse o senso de direção, mas não o caráter energético. Espiou para baixo, rapidamente resignado, mas logo fechou os olhos e, de repente, se divertindo, me soltou:


– Vamos ver, Katrina, se você aprende com os seres terrestres um tom mais facundo, menos destoante de se comportar para retornar ao paraíso. Tem que arranjar mais coisas a fazer além de provocar risos, choques e reconstruções.



Cheguei como um furacão à Terra. Desde então vivo exilada, por agora numa intitulada “doce” e pequena extensão de quilômetros terráqueos. Tenho sido reconhecida por alguns poucos, mas continuo diferente de muita gente desse lugar: um pinguim numa família de elefantes.


Bom, em um ponto Ele acertou: ao cerrar os olhos, sabia que as chances de eu aterrissar em um hábitat alienígena eram fabulosas. Acertou um pouco mais: cheguei a calar, a evitar o riso, a aparentar o mesmo tom e palidez dos chamados humanos. Aprendi com o choro (energias não sabem o que é essa faculdade humana – a de chorar, não a de aprender). Entretanto, acho que Deus está desatualizado sobre os filhos da terra: tenho ficado muito perplexa com os que se chamam pessoas aqui.


Por trás do Véu de Ísis, sabemos que carregamos o caráter de nossas existências, aonde quer que cheguemos - ou que sejamos jogados! Por isso, acho que Deus vai ter que ter uma conversa mais profunda com o Silêncio e mudar alguns conceitos e regras daquele paraíso. Se Ele me mantiver por muito tempo na Terra, pode perder a escola de mesmices e submissão, até porque eu voltei a gargalhar, procurando apenas o volume mais “facundo”. Acho que na verdade era isso que Deus queria que aprendêssemos, mas tenho sido mais aberta aos “ensinamentos” dos submundos. Quando eu descobrir diretamente com meu "Criador" no que deu essa experiência toda, volto e puxo uma perna pra contar pra vocês. [Gar-ga-lha-das!]


Katrina
2010

*Baseada em Marcel Souto Maior

P.S.: Acho bastante apropriado manifestar-se por aqui (ainda em vida!) quem não quiser minha visita. [Mais gar-ga-lha-das!!!!]

sábado, 16 de janeiro de 2010

Nada

Katrina volta a conversar com aquela voz inaudível e familiar, e reflete:
- Às vezes dá muita vontade de ser nada, estudar nada, me especializar no nada, trabalhar em nada, viver nada e como nada. Pararia de sofrer. Mas o nada não me convence, não me preenche, nem quando eu sou realmente nada, nem quando dou tanta chance dele me ter para sempre, no nada. E isso me faz voltar a sofrer. C’est la vie. É o que faz a gente viver. E, às vezes, viver com grandeza – ao menos de espírito, o que é muito para os mais evoluídos, ou ironicamente nada para os materialistas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Garoto índigo

De repente, não mais que de repente, pela rua, quando observavam os "seres desimportantes":
- Déia, dente é que nem pente, né?
- É, Cuca! Tens razão! E poço rima com osso.
- Rima? O que é “rima”, Déia?
- Rima é como o “que nem” que usaste antes, em “dente é que nem pente”.
- Hmmm.
- Por exemplo: Pardal rima com pedal; amor rima com flor; carro rima com barro e....
[Lucas esboça um sorriso malandro e larga a sentença:]
- E nariz rima com tatu!
[gargalhadas]
- E não é que tens razão de novo?!
(O Lucas " Cuca" é um garotinho real, de 3 anos e 10 meses)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Mim, pinguim. Você, Elephant*?

Eu? Eu, um pinguim numa manada de elefantes
Definitivamente um pinguim numa manada de elefantes. Ou um pinguim na sala de jantar... Um pinguim irônico na sala de jantar. E as outras pessoas nessa sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer. Mas essas pessoas na sala de jantar... são um elefante na sala de estar**.  Éléphant avec élégance***, devem estar trombeteando.


(*) Para lembrar Elephant,  longa de  Gus Van Sant, 2003. 
(**) No documentário homônimo (1989), Alan Clarke usa o título por considerar a violência entre os yovens, tema do filme, um problema "tão facilmente ignorável quanto um elefante na sala de estar".
(***) Francês. Algo como: "Elefante, mas um elefante com elegância!". Remetamo-nos à música Décadence avec élégance (Decadência com elegância), do Lobão.
Agradecimentos a Alan Clarke (1935-1990), Marisa Monte e Lobão pela participação não autorizada, porém devidamente reverenciada (plá!).
PROTESTO: O pinguim de verdade, pra mim, é "pingüim" - com trema!!! Maldita falta de cultura arraigada! Malditos brasileiros, máquinas Xerox de xerox!!!

Haitis

Enquanto isso, em Bogotá, Colômbia*:
"Andrés se senta na Praça Bolívar e contempla os transeuntes que atravessam o local em todas as direções. São cinco da tarde e as pombas já se refugiaram na Catedral e nos edifícios vizinhos. Olha para o norte e se lembra das antigas instalações do Palácio da Justiça antes da fatídica tomada pelo movimento guerrilheiro M19. Uma imponente construção que foi incendiada e arruinada pela demência incontrolada dos militares. (...) Nesse mesmo ano ocorreu a erupção do vulcão de Armeiro, continua lembrando Andrés, a morte de milhares de famílias que foram sepultadas pelas avalanches de lama. A história de Omaira, a menina que agonizou vários dias presa na avalanche, deu a volta ao mundo em jornais, revistas e programas de rádio e televisão. Uma menina que, enquanto morria sem que os órgãos de socorro pudessem fazer nada por ela, contava diante dos microfones e das câmaras seus sonhos, desejos, aspirações, o amor incalculável que sentia pela vida. Andrés chuta as pedras do chão. O que é que acontece neste país que parece irremediavelmente condenado à ruína e à desgraça? Por que não melhoramos, por que não avançamos? Que complô sinistro nos mantém mergulhados na desordem generalizada, na corrupção e na entropia social? Por que os políticos e os grandes empresários continuam ordenhando a nação sem lhe dar uma pausa, sem lhe outorgar uma possibilidade para se reorganizar e procurar a redenção?" ** 
Então? O Haiti é lá e aqui e acolá, há muito e parece que para todo sempre...
* Cenário de Satanás (2009), ficção ("de" fatos reais) de M. Mendonza
**Trechos do livro  

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Ouvido interno

Katrina pergunta-se, em voz alta, por que é, às vezes, tão volúvel ou impulsiva com os outros. Uma voz inaudível e curiosamente familiar lhe dá a resposta:
- Porque minha mente me trai. Dá lugar a outros, outros vis. Deixa-os entrar. Soprar. Manipular. Às vezes, minha inteligência some, como se tudo fosse uma grande confusão, um buraco negro, que engole tudo e não revela nada. Mas eu, consciente, sempre. Quando busco algo que me era tão íntimo, ele escapa feito centelhas, centelhas negras. Noutras, falo coisas que não sei, que não parecem minhas, que não sei como sei. E eu consciente, sempre. E por vezes, muitas, quando capturo tudo me foge, como se não fosse eu a que tivesse lido, visto, ouvido - mesmo sendo eu a que tenha devorado - e com a ânsia de quem quer saber tudo, mas que sabe que tudo não pode ser visto, nem tudo lido, nem tudo pensado*. Tomada pela consciência. Sempre.
(*) Fernando Pessoa, Livro do Desassossego