Entre, fique à vontade. Sente, relaxe, aproveite. Vai ser um pouco alto, mas eu sou assim mesmo**. São apenas lagartixas divinas *** - as minhas lagartixas. Às vezes, partos cerebrais***. E nada mais.



(*) crédito a Ton K.; (**) Marvin Gaye; (***) Nietzsche















sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Pitangas Cadentes


O pátio do apartamento de Katrina precisava de uma faxina. Sim, o pequeno apartamento tem pátio, duas pitangueiras, rede e churrasqueira, um oásis metropolitano. Daí que ela percebeu que, antes de as pitangas brotarem, caem minúsculas estrelas marrons. Povoam o chão. Foi pensar que o mundo, vez em quando, poderia existir ao contrário:

“Caminharíamos com as copas das árvores sobre nossas cabeças e sob ameaças de frutos maduros. Nadaríamos nas nuvens, cruzaríamos costumeiramente com anjos. Quando estivéssemos cabisbaixos, o céu translúcido seria a resposta mais próxima. Se uma tempestade se firmasse, perpassaria nossos corpos. Faríamos parte dela. Aconteceríamos como raios.

Nesse mundo-inverso, sobre nossos ombros estariam nossas construções, imensidões de lixo, os pobres e os ricos. A qualquer lado que olhássemos, o infinito seria nossos próprios erros e acertos – arquitetônicos ou maquiavélicos. Não escaparíamos desse horizonte. A força da gravidade manter-se-ia nesse “transloucamento”. Estaríamos sobre a Criação Divina e abaixo da intervenção humana.

O que faríamos se não pudéssemos alcançar nossas próprias mazelas, mas de lá elas nunca saíssem? Se o inatingível virasse nossas próprias edificações, nossos arranha-céus, nossos casebres, com o que sonharíamos? Mares e oceanos revoltados sobre nossos corpos. Montanhas, florestas arrasadas. Daí que continuaríamos sendo soterrados, inundados.

As pitangas só brotam vermelhas se caírem estrelas marrons. E se o tempo passar um pouco, desistida a colheita, acabam-se manchas negras no chão. Sob nossos pés ou sobre nossas sentenças.”


Alemoa.
Moa, moa.

Passo do Sobrado ou Sobrado Encantado


Jabuticaba tem gosto de infância, da minha infância!

Levávamos seis horas pra chegar à casa dos meus avós e tudo de que eu precisava era que meu pai me escolhesse para abrir a porteira e subir no pé de Jabuticabeira. Parecia o próprio pé-de-feijão das fábulas, sempre me orgulhei disso. A casa era toda de pedra, a uns dois metros do chão. Ficava difícil deixar os colchões de mola e pular o degrau até a bica d'água do poço artesiano, de ferro, pesada, comprida feito gangorra - outra coisa fantástica para mim.

A infância é mesmo mágica... Voltei lá ontem (devo ter ido outras vezes, mas não recordo): a casa é de alvenaria, o desnível não tem nem meio metro, a bica de ferro foi roubada e a jabuticabeira, que ficava bem no meio do terreno, está no mesmo lugar, ao lado da casa. Tem o tronco tão grosso e tão alto quanto qualquer outra árvore da espécie. Mas o sabor da jabuticaba, ah!, esse continua exatamente como era pra mim há 25 ou 30 anos.

Hoje, entendo melhor ainda Pessoa (e as pessoas): "Sou do tamanho do que vejo, não do tamanho da minha altura".  Ou mais ou menos isso.

Passo do Sobrado, RS, fevereiro de 2013.