sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Pitangas Cadentes
O pátio do apartamento de Katrina precisava de uma faxina. Sim, o pequeno apartamento tem pátio, duas pitangueiras, rede e churrasqueira, um oásis metropolitano. Daí que ela percebeu que, antes de as pitangas brotarem, caem minúsculas estrelas marrons. Povoam o chão. Foi pensar que o mundo, vez em quando, poderia existir ao contrário:
“Caminharíamos com as copas das árvores sobre nossas cabeças e sob ameaças de frutos maduros. Nadaríamos nas nuvens, cruzaríamos costumeiramente com anjos. Quando estivéssemos cabisbaixos, o céu translúcido seria a resposta mais próxima. Se uma tempestade se firmasse, perpassaria nossos corpos. Faríamos parte dela. Aconteceríamos como raios.
Nesse mundo-inverso, sobre nossos ombros estariam nossas construções, imensidões de lixo, os pobres e os ricos. A qualquer lado que olhássemos, o infinito seria nossos próprios erros e acertos – arquitetônicos ou maquiavélicos. Não escaparíamos desse horizonte. A força da gravidade manter-se-ia nesse “transloucamento”. Estaríamos sobre a Criação Divina e abaixo da intervenção humana.
O que faríamos se não pudéssemos alcançar nossas próprias mazelas, mas de lá elas nunca saíssem? Se o inatingível virasse nossas próprias edificações, nossos arranha-céus, nossos casebres, com o que sonharíamos? Mares e oceanos revoltados sobre nossos corpos. Montanhas, florestas arrasadas. Daí que continuaríamos sendo soterrados, inundados.
As pitangas só brotam vermelhas se caírem estrelas marrons. E se o tempo passar um pouco, desistida a colheita, acabam-se manchas negras no chão. Sob nossos pés ou sobre nossas sentenças.”
Alemoa.
Moa, moa.
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