De repente, não mais que de repente, pela rua, quando observavam os seres desimportantes*:
- Déia, o que foi isso? Esse barulho?
- São pássaros cantando, Cuca.
- Déia, o que foi isso? Esse barulho?
- São pássaros cantando, Cuca.
- Mas onde eles estão que eu não tô vendo?
- Não sei, não estou vendo também.
- Olha lá, Déia! Achei!
- É mesmo, amado!
- Pega ele pra mim, Déia?
- Não, Cuca! A gente não pode pegar um passarinho, porque ele foi feito pra viver no céu, livre!
- Eu queria ser um passarinho...
- E por que querias ser um passarinho?
- Porque eles são livres.
- Mas tu não és livre Cuca?!
- Não.
- Por que achas que os passarinhos são livres e tu não?
- Porque eles têm asas e podem voar no céu. Eu quero voar, Déia!
- Só que tu não foi feito com asas, Cuca! Fostes?
- Não, mas eu queria!
- Mas tu tens a terra pra andar e o mar pra nadar! Tuas pernas e braços foram feitos pra isso. Não te bastam a terra e o mar?
- Me bastam. Mas eu queria voar...
- Bom, que tal um pássaro de mentira, daqueles de ferro que levam um monte de gente, então?
- Que nem o teu, Déia?
- É, como aqueles que tu vias no aeroporto, quando me buscavas com o teu vô. Queres?
- Queroooo!
- Mas não vais ficar com medo, Cuca?
- Vou sim, mas eu quero ser livre como os passarinhos.
(O Lucas "Cuca" é um menino cor de chocolate suiço ao leite, tem 4 anos de idade incompletos e fala exatamente como transcrito no diálogo, mas arrastando o "s", embora seja um pelotense nato.)
(*) Manoel de Barros
(*) Manoel de Barros

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